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domingo, 21 de dezembro de 2025
quarta-feira, 4 de abril de 2012
FIDELIDADE X INFIDELIDADE - Parte 1
Valéria Giglio Ferreira - Psicóloga
Em uma pesquisa recente* foi sinalizado que ao traírem seus parceiros, as mulheres atuais justificam tal ato acusando-os de falta de carinho, atenção e intimidade.
É verdade que estamos em outros tempos e que as mulheres de verdade modernas já não são como as Amélias daquela famosa música. Hoje em dia, mulheres de verdade são verdadeiras, primeiro, consigo mesmas.
De todo modo, a informação é curiosa! E..."engraçada"!
Engraçada porque me faz lembrar que esta era precisamente a justificativa dada pelos maridos infiéis de outrora.
Isto, se não é triste é engraçado...
Pois, é exatamente a repetição da justificativa para a infidelidade projetada no outro, não assumida como uma decisão pessoal.
Diziam os maridos de antigamente que traiam porque algo lhes faltava em casa, sendo este algo, carinho, amizade, sexo, intimidade!
Este discurso masculino de que traiam porque suas mulheres eram inadequadas, quando não...loucas, de tanto ser usado e abusado caiu no descrédito e está fora de moda. E agora vêm as mulheres usando a mesma retórica...
Quando a sabedoria popular aponta que as situações de infidelidade reportam a problemas no casamento, devo dizer que concordo.
Sim, a infidelidade pode ser vista como o sintoma de uma relação amorosa doente. Porém, dar à relação doentia este "remédio" me parece uma decisão pessoal daquele/a que trai.
Digamos, então, que os problemas conjugais que costumam estar embaixo da infidelidade são comuns a ambos os cônjuges, mas, a decisão de "contorná-los" traindo é individual.
Em uma de suas canções, Chico Buarque diz: "...te perdoo por te trair..."*. Se não me equivoco, fica sugerida aí a ideia de que numa traição amorosa a responsabilidade pode ser externa ao sujeito que trai, que a responsabilidade pode ser do outro. É bonito dizer assim, fica poético, mas, discordo.
Gosto de pensar que sou justa e se já não concordava com os homens dizendo isto, culpabilizando totalmente suas parceiras por seus atos infiéis, continuo não concordando com esta justificativa no que diz respeito à infidelidade feminina.
Volto a dizer: os conflitos relacionais que costumam estar presentes em situações anteriores ou concomitantes ao ato infiel pertencem a ambos os cônjuges, mas, a resolução de trair é de responsabilidade pessoal.
Haveria outras soluções.
Entretanto, as outras soluções implicam em empreender mudanças intrapsíquicas e extrapsíquicas, ou seja, no mundo do inconsciente, mas, também no mundo consciente, prático, objetivo, real, inclusive colocando ordem em várias relações, vínculos e alianças, especialmente, com as suas respectivas famílias de origem.
Na Psicologia, há um autor* que diz "...a seriedade só começa quando se passa à ação..."
Acredito que nesta perspectiva, as infidelidades masculinas e/ou femininas passam a ser uma tentativa de evitar o agir comprometido, evitar a ação séria que a relação amorosa necessita e merece.
Deste modo, o ato de trair pode ser interpretado como uma tentativa de acomodar uma relação a dois disfuncional, apoiando-a numa terceira pessoa. Ou seja, triangulando com ela, e portanto, sem empreender mudanças reais, estruturais no mundo interior ou no mundo exterior do casal e do sistema familiar.
Assim, a infidelidade é, enquanto triangulação, uma tentativa de manter uma relação conjugal doentia, sem se comprometer com as sérias transformações que a remissão deste tipo de sintoma relacional requer: seja na direção de mudar aquilo que precisa ser mudado para "curar" a parceria amorosa, seja no sentido de dar a história da parceria uma finalização mais digna.
Autora: Valéria Giglio Ferreira - Psicóloga
* "Fidelidade x Infidelidade" - Parte 2 - Ver postagem seguinte.
Citações e referências:
* Goldenberg, Mirian - Por que homens e mulheres traem? - Ed. Bestbolso
* Hellinger, Bert - Ordens do Amor - Ed.Cultrix
* Mil perdões - Chico Buarque
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Ferreira, Valéria Giglio - Blog AMAR- EDUCAÇÃO CONJUGAL E FAMILIAR
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FIDELIDADE X INFIDELIDADE - Parte 2
Valéria Giglio Ferreira - www.amar.psc.br
Então, dizíamos que a infidelidade é uma forma de tentar manter uma relação a dois disfuncional apoiando-a sobre uma terceira pessoa e "triangulando" com ela.
É algo como colocar um calço numa mesa bamba, resgatando-lhe a estabilidade perdida ou não consolidada.
Porém, o problema de dar este tipo de "encaminhamento" para as dilemáticas matrimoniais é que, em geral, ele não resolve o problema conjugal subjacente e ainda cria outros adicionais.
Numa reflexão clássica, a função social das/dos amantes é a de "estabilizar casamentos instáveis".
Explicando: todo casal tem conflitos porque por mais que tenham afinidades são duas pessoas diferentes e eventualmente discordam em algo de maior ou menor relevância. Estas diferenças precisariam ser confrontadas e negociadas dentro da parceria em um acordo justo.
Mas, este processo de confronto das diferenças considerando a perspectiva de uma negociação justa implica em mudanças que nem sempre um ou ambos os cônjuges estão prontos ou dispostos a fazer.
Então, marido e mulher vão "varrendo os conflitos para baixo do tapete" até que chega um momento em que o tapete conjugal está tão empoeirado que nenhum dos dois o suporta mais.
Neste ponto o nível de tensão no relacionamento fica tão alto que um atrito mais sério ou disruptivo se torna iminente.
Uma maneira de tentar abaixar o nível de tensão na relação a dois sem modificá-la, sem negociá-la e sem rompê-la é jogar esta tensão numa terceira pessoa: a/o amante, que passa a ser usado/a como depositária/o do "lixo conjugal", ou seja, daquilo que o casal não consegue metabolizar a dois.
E esta costuma ser uma posição ilusória e cruel: o/a amante ilude-se com a fantasia de ter o/a parceiro/a do outro repetindo aí a fantasia infantil edipiana de casar-se com o pai ou com a mãe, ou seja, de tomar para si alguém já comprometido/a.
Muito deste recurso de ter amantes remonta ao modelo de conjugalidade da família patriarcal onde os homens eram ensinados que sua virilidade estava em jamais rejeitar sexo fosse com quem fosse e as mulheres eram ensinadas que a sua sexualidade só seria santa se fosse para fins procriativos.
Um tremendo desencontro: eles tinham que ter sexo sempre e elas não podiam ter nunca.
No bojo deste conceito de sexo como algo pecaminoso as esposas acabavam "fazendo vista grossa" para a "terceirização do serviço".
No limite extremo desta leitura podemos dizer que o fato de os homens patriarcais terem amantes e de traírem suas esposas fez quase que parte do modelo patriarcal de casamento e família, e que, de um modo ou de outro, cada um dos três "participantes" dava o seu encaixe para esta estrutura triangular.
A divisão do psiquismo feminino no patriarcado determinava que as mulheres escolhessem entre duas opções: serem as santas mães de família - e aí abriam mão do prazer - ou, serem prostitutas/amantes onde então abririam mão da honra. Os homens ficavam com duas delas: para esposas, as santas mães de família e para sexo, lazer e prazer as amantes e prostituas.
Desta ótica, observamos com clareza que a maioria dos homens que faziam uso deste expediente, o fazia sem a menor intenção de separar-se de sua esposa oficial.
O terapeuta Frank Pittman, numa frase de impacto diz: "...a amante é uma empregada do casamento, quando ela quer passar de empregada à patroa é demitida!...".
Reiteramos que num caso de triangulação amorosa, cada um faz o seu papel: o/a cônjuge infiel o faz ao buscar uma solução para a problemática conjugal fora do casamento; a/o amante, ao entrar em uma relação já constituída - em geral buscando uma resolução edipiana tardia; e o/a cônjuge traído, ao permitir/aceitar a invasão em seu território. E cada qual com claros motivos inconscientes para tal atitude.
Então, numa história de infidelidade todos perdem algo valioso: o/a infiel perde seu senso de integridade, o/a traído perde seu território e o/a amante perde seu tempo numa relação sem expectativas reais.
Mas, quem mais perde?
São os filhos/as que, impotentes e enredados nos desatinos de pai e mãe, ficam a mercê da perpetuação do sofrimento familiar.
* Veja também: "Fidelidade X Infidelidade - Parte 1"
Psicoterapia Individual - Casal - Familiar
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